0

Semana Nacional do Livro ou qual seria a nossa lista dos mais vendidos

A semana passada foi a Semana Internacional do Livro e alguns dos nossos articulistas fizeram algumas indicações de 5 livros preferidos, de autores brasileiros e latinos. Então, minha gente, se o problema é encontrar um livro bom pra ler, seus problemas estão resolvidos!!! A minha MUSA (Lygia Fagundes Telles) disse em uma entrevista que tem horror às listas dos livros mais vendidos que ela vê por aí. Pois eu tenho muito orgulho destas listinhas aqui embaixo, porque foram feitas por pessoas donas de incríveis bom gosto e inteligência. Deliciem-se. Pra saber mais sobre as pessoas que indicaram (eu, Mirelli, Julia e Juliana), clique aqui em cima na aba “articulistas”.

***

5 indicações de livros por Julia Medrado

1) O Livro de Areia – Jorge Luis Borges

2) Suicídios Exemplares – Enrique Vila-Matas

3) Histórias de Cronópios e de Famas – Julio Cortázar

4) Tia Julia e O Escrevinhador – Mário Vargas Llosa

5) Famílias Terrivelmente Felizes – Marçal Aquino

**

5 indicações de livros por Juliana Leite (e um bônus!)

1) O jogo da Amarelinha – Júlio Cortázar

2) Os Detetives Selvagens – Roberto Bolaño

3) Sagarana – João Guimarães Rosa

4) Antologia poética – Mário Quintana

5) Alguma Poesia – Carlos Drummond de Andrade

6) Mãos de Cavalo – Daniel Galera (esse vai de brinde, só pra ter uma mostra do que está acontecendo de bom no Brasil, agora rsrsrs)

**

5 indicações de livros por Mirelli Fernandes

1) As Meninas – Lygia Fagundes Telles

2) Toda Poesia – Paulo Leminski

3) Esses Livros Dentro da Gente – Stela Maris Rezende

4) Antologia Poética – Carlos Drummond de Andrade

5) O Livro das Perguntas – Pablo Neruda

**

As minhas 5 indicações de livros!

1) O Jogo da Amarelinha – Julio Cortázar (só pra constar, que o livro é delicioso de ler)

2) Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa

3) Travessuras da Menina Má – Mário Vargas Llosa

4) Clarissa – Érico Veríssimo

5) Música ao Longe – Érico Veríssimo (este é continuação do anterior)

***

E aí, alguém já leu algumas destas indicações? Alguém tem uma listinha pra indicar pra gente? Comentem!

2

O presente que eu mais gosto de dar

Hoje é aniversário do articulista André Dornelles Pares, o meu amigo de 15 anos, um cara que pode revolucionar o vestuário do rei (sei que ele amou os trocadilhos). O meu presente pra ele é o texto com o assunto que ele sugeriu quando esteve por estas terras paulistanas, tá aqui, Dé. Hoje eu deixo você me criticar.

**

ESCURO

E todos os dias, dentro das vinte e quatro horas, o menino e a menina tentam fazer caber todas as coisas que pensam, que gostariam e que conseguem fazer. Do café sem leite, da porta da cozinha aberta, das pombas pousadas na antena, do relógio que não precisa tocar porque já existe um dentro de si – e vale a pena dizer o quanto o relógio dela é muito mais barulhento do que o dele. Da cortina que sempre cai, da porta do armário mal colocada, da lista de supermercado por duas semanas na porta da geladeira e o iogurte que não pode faltar nunca ou a máquina de pão que sempre vai de volta pro armário sem ser limpa. E da lâmpada da cozinha que está queimada. Mal se dá tempo pra querer. E de vez em quando ela pergunta se eu a amo ou fica zangada quando jogo videogame. Ou então ele pousa a cabeça em seu ombro, meigamente, e puxa o cobertor para cima, cobrindo-os, ambos no sofá. E ele a deixa assistir todos os programas de culinária ou de artesanato e nos comerciais ele gosta de trocar de canal para ver aquele cara que domina os cães ou aquele programa que fala sobre o universo – e fica sem entender quando ela escolhe algum programa imbecil de adolescentes. Ele nunca fala nada, mas ela percebe mesmo assim (mas não troca de canal). E segunda-feira é dia de fazer marmitinhas para a semana e ainda bem que ela me deu o vale-refeição, porque se não fosse assim, gastaria tudo antes mesmo do dia quinze. E a lâmpada da cozinha está queimada. É que ela tem esta mania de dizer que está estressada para justificar comer um doce todo o dia no final da tarde e reclama quando sugiro que faça exercícios. E no meio de todas as manias que ela tem, a que ele menos entende é a mania de escolher sempre os caminhos mais complicados para todas as coisas, e escolher andar de ônibus ao invés de escolher os metrôs, que andam muito mais rápido. E esta coisa de ser tão romântica a ponto de gastar dinheiro com cesta de piquenique e toalha xadreza e inventar de sair todos os domingos, me fazendo acordar cedo demais para segurar o rebatedor pra que ela fotografe uma árvore que ela acha linda. E a lâmpada da cozinha continua queimada. Mas ela é adorável mesmo assim. Mesmo com as unhas dos pés manchadas de micose e o exame que ela nunca vai fazer, preferindo vestir os pés com meias felpudas em plenos dias de calor. Mesmo que ela deixe na gaveta todas aquelas camisolas bonitinhas para vestir a camisa xadreza do seu pai, cujos punhos foram dobrados um milhão de vezes para chegar ao tamanho dela. Eu a amo mesmo que ela faça cara de zangada porque eu demoro pra lavar a louça, é que ela não entende que eu não enxergo no escuro, porque a lâmpada da cozinha ainda está queimada. E de vez em quando eu a observo, sem que ela perceba, quando ela adormece no meu colo, enquanto estou jogando tênis pela tevê. Ela diz que adormece escutando o barulhinho do controle, tic tic tic tic tic. Acho lindo os detalhes todos. Acho lindo estes grampinhos com que ela segura a franja e nunca tira. Acho lindo como ela sabe que é muito mais bonita sem maquiagem e por isso todo o trabalho é só tirar o cabelo do rosto. Acho lindo o jeito que ela baba na minha calça quando está dormindo mesmo. Adorável como ela vem me cobrir de manhã e quando ela tenta não me agradar, porque está brava, mas mesmo assim não se segura e me agrada do mesmo jeito. O jeito que ela arruma a casa e os corações que pendurou na parede, as flores de cetim que jogou dentro do vaso e a máquina de escrever que arranjou por aí. Toda a sua coleção de câmeras antigas e o cartão de crédito; todas as contas enfiadas atrás da caixa de som do computador. A colcha arrastando as pontas no chão. O banho demorado, o jeito de ficar olhando o entardecer pela janela, ou simplesmente olhando o cachorro ou o gato. O tapete esquisito que ela arranjou pra jogar no meio da sala. A mesa, com migalhas e formigas e todas as galinhas da cozinha com seus nomes divertidos (e a lâmpada, que continua do mesmo jeito). Mas dentro das suas vinte e quatro horas, o menino e a menina tentam fazer caber todas as coisas que pensam, que gostariam e que conseguem fazer. Ela segue sem perceber que uma parte da casa está sem luz,  segue fazendo seus desenhos e suas fotografias bonitas ou o café quentinho, com bolo de chocolate aos finais de semana enquanto ele e os olhos dele vão esquecendo pouco a pouco de que a lâmpada da cozinha está queimada.