About what was not scheduled

(this text is a fiction, right?)

* * *

She was out of her country, spending some days meeting some colleagues from the headquarters, doing some trainings… everything was fresh and full of joy for her – as she´s the kind of person who always see the positive side of everything. And the positive side of taking an airplane and going abroad (something that she´s always avoided) was living new adventures. Ok, she´s not the person who chooses to live adventures, but the one that always prefers the calm side of the sea, if you understand what I´m talking about. But not that time. She was excited as she used to be when opening the first page of a book, that one we´ve been expecting a long time to read. And it was a typical night off, friday night. After her professional tasks, she took a shower and dressed – to meet the guys in a bar, something recommended by them as the hottest place in the city, and there she went. Nothing special: a light, well behaved and romantic black dress, she likes to use it cause it contrasts with her clear skin. Some blush, to give that healthy air, something simple on her lips and black eyes (but not too much). Her curly hair was displeasingly untied and fragrant. She closed her room´s door  and went downstairs. Took a taxi and saying “Hoosters” was enough.

Everybody was there, talking around the table and there was a band playing a cover of Eric Clapton – not the best cover she´s seen in the world, but ok, it was nice. She took a seat behind her two partners – Todd and Colin – and asked for… ok, it´s friday, I´ll pass the coke. Please, give me something not too strong but something else than beer. Oh, you should taste our beer, you have to taste all this city experience and it includes the beer, ok? Nope! You can take mine! Cheers!

She couldn´t see the people faces, because the lights were very low and colored ones were dancing around the club, dying everyone´s (happy) face. But she saw the blue face from one of the guys that were sat at her side. He was the one she had more contact everyday, every time. Was her reference when something need to be learnt or understood. Her acoomplice to get the goals and share them. He was a gentle guy, very ellegant and polite that used to take care of her, giving some special and precious tips: where´s the best toilet to be used, which time is the best to give a break for lunch, which was the best restaurant (or the cheapest), where were the pencils and the printer. Ok, don´t leave the job exactly 5PM, cause we have a huge traffic here, you wouldn´t like to face it! Give a check around your facebook, read a book. Or, go walking to the hotel, if you´re the kind of person who likes to give a walk. I am, he said. She smiled him, but didn´t answer, only thought.

_ Yes, I am too.

_ You´re what?

_ I´m the person who likes to give a walk. And I followed your advice, thank you.

There were a few days when looking into someone´s eyes thrilled her. Like… three or for days of her life. And that was one of them. She couldn´t see much, and also couldn´t hear too much, but she saw when he jumped into her eyes taking advantage of the dark place (always opportune to the shy guys), and the low lights. She approached, to listen what he was whispering. He had a gentle voice. He got the message and, despite the band was playing too high, there were in that place two people whispering to each other. Like when we tell secrets, like when nobody must hear. Like when we are alone. When they put their eyes back around there were anyone there, already. Everyone was suddenly gone – what turned everything funny. “Why does everybody simply and instantly blow up? Haha…. Oh my god. I am too old for this…” some of the two has thought.

_ We didn´t see the time pass, he said.

She smiled and he touched her finger. Both looked down, to that subtle instant as wishing  to stop it, like superman has stopped the earth to save Louis Lane. Ok, this is not to save anybody but because time really goes too fast and this night is too perfect, I don´t want it to end.

_ What you are doing… – she asked still looking to his finger dancing on hers.

_ I don´t know.

He laughed.

_ Are you drunk, Colin? (…) Hãn?

_ No. I´m not drunk. I´m in love.

(…)

_ Ahhhh, don´t start with this. No no no no. We met one week ago, how can you say you´re in love?

_ I don´t know, lady. What can I tell you. That I came here this night just to see you? That I can´t work with you by my side, I can´t even get focused? I can´t stop thinking about you, don´t ask me how. I don´t know and I am not drunk. No drugs, too.

She laughed.

_ You expect that I will get into your conversation, huh? I won´t. Listen: I live in Brazil. You live in Houston. Too far, isn´t it? I will not kiss you and fall in love with you and fuck with my heart – (she told him, a little bit late).

_ If you want to talk about broken hearts this is too late for me: my heart is too fucked, little lady, since the first time I say you, in the hall, asking where was the toilet. The toilet was right in front of you…. haha…

There were then a few minutes of quiet thoughts, like taking breath to the next following ones. And when she turned back her eyes down, he was still touching her finger. But what happened from that moment on, guys, this storyteller couldn´t tell you:  all the lights were turned off and, even if they weren´t, I would close my eyes anyway… (I can keep my characters´ secrets).

* * *

                                                                                                                                           Escrito por Melissa Brienda Sliominas (uma incorrigível romântica)_MG_0822

A suntuosa linguagem dos anjos

Isso de a gente se sentir mais uma no meio da multidão faz a gente se habituar e se afeiçoar à simplicidade, ela pensa. Pensa sentada no banco do ônibus da Rua Major Otaviano, dividindo sua atenção entre os pensamentos que lhe circundam a cabeça, à curva de onde viria o ônibus e ela deveria estar atenta e ao muro do estacionamento do metrô, por onde escapavam galhos de enormes árvores que pareciam jamais terem sido podadas. Ela gostava de olhar as coisas, as pessoas, o céu – que naquela manhã estava nublado, não tinha muita graça não. Já no ônibus (vazio! que sorte! ela fica feliz quando o ônibus passa vazio), escutou no rádio a moça dizendo que o sol ia dar as caras, mas ali por entre as nuvens, meio com preguiça de aparecer. Por ela, tudo bem. Contanto que não chovesse. Não gosta de ter que tirar o guardachuva da bolsa. Gosta quando o dia está bonito (e o bonito dela tinha um significado mais modesto), porque aí ela poderia (com sorte) sentar-se ao lado da janela e observar as ruas, as coisas, as pessoas, o céu – e os prédios. Como o centro devia ser bonito, antigamente. Os prédios eram elegantes, gosta de sua arquitetura. Mas sente uma coisa entre tristeza e repúdio quando dali há alguns metros adiante do elegante palacete da Av Ipiranga vê portas pichadas, pessoas dormindo no chão com pés descalços e imundos. Pessoas sem rosto. Primeiro porque ninguém olha. Segundo porque sempre estão com os rostos tampados durante aquilo que se chamaria um cochilo, se ali fosse o lugar certo. Pobres pessoas. Não tenho do que reclamar. Sou bem nascida: bem nascer é ser bem criada depois. Bem nascer é poder estudar e durante um bom tempo só se preocupar com o caderno e o dia da prova. Bem nascer é bem querer. E além de tudo, sou de uma família cujo avô não desgrudava do tercinho, um aficionado apaixonado por Nossa Senhora. Botou os nomes de todas as filhas com eme de Maria. Lembra-se das três irmãs que se chamavam Maria Isso, Maria Aquilo, Maria Outra Coisa. As três Marias. Suas tias eram as 7 Marias – 8 contando com a sua mãe. Não levavam Maria no nome, mas levavam no coração. E provavelmente no sangue, porque são mulheres fortes, tremendamente fortes. Lembra como antes tinha medo desse ziriguidum de força. Achava que a gente tinha que ir devagar, de mansinho. Acabou que se deu conta que o tempo também lhe fez Maria. Mas uma Maria que gosta de dar passinhos pequenos e que mais se esconde do que quer ser notada. E assim vai, caminhando entre a enorme multidão paulistana, repetindo nos relógios diários a sempre rotina. Olhando as coisas, as pessoas, o céu, os prédios, o metrô, o trem. Aprendendo aqui e ali, fuçando pelos cantos, tateando no escuro, percorrendo as lacuninhas. É dessas que gostam de almoçar sozinha, pra ficar pensando na vida e ter um momento de paz. Nunca se deu muita importância. E sempre pensou que as pessoas também não lhe dão. Daí fica triste por alguns minutos, pode ir e vir estes minutos. Mas depois se lembra o quanto é incondicionalmente amada, por quem é incondicionalmente amada. Lembra que no seu casamento todas as 8 Marias mais os homens da família estavam reunidos, depois da comitiva Sul-Sudeste. Daí estes minutos de tristeza passam e ela se lembra do que é mais importante. No mais, vai levando, vai construindo de pouquinho e pouquinho seu castelo. Assim infiel que não vai à Missa há meses, mas com o amor que tem por Deus dentro do coração. Às vezes resmunga alguma coisa pra Este Senhor. Quando sente medo, faz três vezes o Sinal da Santa Cruz, ou reza a Oração de São Bento. Ou então, lembra de ter lido que Nossa Senhora recomendou por aí, literatura afora, que não é pra quebrar muito a cabeça tentando entender o mundo, as pessoas… isso nos custa o juízo. E quando vai dormir, podrinha de cansada, não reza não. Ou melhor: reza sim, mas reza dessa forma: Deus, eu te amo. Cuida das pessoas que eu amo. Tchau. Ela tem certeza que Ele entende. Entende que tá difícil. Que acordar cedo é fogo. Que enfrentar o metrô muvuca trem muvuca afff, como cansa. E tem a pia, a louça, as roupas, o maridinho, a enxaqueca, as contas, as janelas que não podem ficar abertas. Tem o dinheiro que voa como vento, voa mais rápido que o vento, até. Deus entende. E ela sente um Deus sorridente, um Deus carinhoso que acha graça no seu jeito… sem jeito. Ele deve gostar dela porque em seu coração não deseja os palacetes da Avenida Ipiranga de 1800, nem os de agora. Não deseja coisas luxentas, nem roupa de marca. Não quer coisas à mais do que precise, não quer se iludir com o que passa. Ela sabe o que é que não passa. E mesmo com tanta confusão, tanto cansaço, tantas incertezas, tanta coisa tanta tanta tanta, ela é feliz assim mesmo. Mas daí chega um dia que parece que foi feito pra ela. Um dia assim como um rocambole recheado de boas notícias: a confiança das pessoas, a promoção, o aumento de salário. Novos aprendizados, novos horizontes e as orações que estavam na fila de pendências: rezar pra conseguir mais dinheiro, rezar pra Deus iluminar meu trabalho, rezar pra solução das minhas preocupações. Deus deve ter lido a lista de pendências. Deus aceita orações disfarçadas em listinhas ou pensamentos contínuos… Ela não faz muita festa pra não despertar inveja – coisas aprendidas com as Marias. Volta pra casa com a cara sossegada de sempre, mas dentro dela é ano-novo: explodem fogos de artifício. E uma desacreditência porque por mais que se esconda no meio da multidão, das coisas, das pessoas, dos carros… parece que alguém sempre a está observando. E ela, tão pequenina, tão simplinha, tão Mariazinha de nada, parece ter alguma coisa grande o suficiente pra conquistar a confiança das pessoas e o amor Daquele Senhor. Ninguém nem sonha, ela vem calada. Vem andando ali do lado do muro do metrô Bresser – toda quinta – feira tem Missa de Louvor ali dentro, onde já se viu. E uma barulheira danada, ela não gosta: é adepta do silêncio na hora de rezar (ou do sono). Mas hoje ela passou de fininho, escutando sem fazer esforço a voz do padre, que dizia entre exclamações e emoções que você não veio para o mundo à toa. Deus está cuidando e transformando a sua vida. Depois, ele começa a rezar na linguagem dos anjos…

Lá fora, ela caminha sem pressa na rua vazia e compreende tudo.  É começo de outono e chove de fininho:  ela não precisa disfarçar que chora.

                                                                                                                                                                   Escrito por Melissa Brienda Sliominas. 1170951_203347463159860_2007458794_n